Outros papos

Published on junho 11th, 2018 | by Ana

0

‘Foi São Machado de Assis que nos uniu’: conheça o casal Sue e Fábio

Sete de junho de 2018, uma pesquisa do Happn, aplicativo de relacionamentos, afirma que 38% dos solteiros sente vontade de encontrar um amor, em apenas cinco dias, para o Dia dos Namorados.

Em São Paulo, aos poucos, quase 2 mil exemplares de livros viram provas da união recente de Fabio Ulanin e Assunção Medeiros. Um ex-libris, espécia de carimbo utilizado para indicar posse, registra, em marca d’água, o casamento dos dois nas obras que rodeiam a mesa de onde eles trabalham diariamente, de frente um para o outro.

— Explicando a simbologia: somos os dois católicos, eu de família italiana, ele de família polonesa e russa. O símbolo da Itália e da Polônia é a águia. Portanto, a iconografia é a cruz, a águia e o livro. Como também somos medievalistas (pessoas que se dedicam a estudar o período medieval), a fonte é a Goudy Medieval — diz a mulher, descrevendo o carimbo encomendado em uma gráfica de Curitiba.

Ele, redator e revisor de textos, ela, professora e tradutora de língua portuguesa, ambos têm 50 anos e acumulam coincidências que, em uma visão um tanto romântica, não puderam passar despercebidas a um escritor brasileiro.

— Foi São Machado de Assis que nos uniu, digamos — sentencia Fabio, como é de se esperar de alguém que consome muita literatura.

Os dois se conheceram há quinze anos. Em 2003, acompanhavam os blogs um do outro. Apesar dela morar no Rio e ele, em São Paulo, chegaram a se encontrar duas ou três vezes na época, em casa de amigos em comum. Mas foi só no final de 2016 que um presente tornou a relação mais próxima. Em uma fase mais realista, o próprio Machado diria, em defesa das mulheres: é de Assunção, nossa protagonista Sue, o mérito do início do relacionamento.

— Começamos a bater papos via internet mais assiduamente em final de 2015 e todo 2016. Em novembro de 2016, vi o lançamento de uma edição especial do Dom Casmurro, do Machado de Assis, coisa fina para colecionador – apenas 100 exemplares numerados com capas únicas pintadas a mão. Fiquei doido com o bichinho. Escrevi alguma coisa a respeito. E Sue leu e quis me dar o livro de presente. Nossos papos que sempre foram bons sobre diversos assuntos se ampliaram — admite Fábio.

Um namoro de apenas dez meses e um casamento depois, os dois descobrem gostos muito parecidos dia após dia. As exceções literárias são poucas: Fábio gosta mais de biografias que ela, Sue gosta mais de ficção científica que ele. Por isso, trechos do que leem acabam sendo narrado em voz alta em diversos momentos. Eles contam que nunca brigaram por opiniões literárias. Mais facilmente, se unem.

— Quando não gostamos de uma coisa, esbravejamos contra o autor — afirma Fábio.

A estante compartilhada é testemunha da paz que reina na maior parte do tempo. E comunica aos usuários do Happn que uma história de amor pode ser rápida e ao mesmo tempo muito, muito devagar.

Por Sue:

Foi rápido e foi muito, muito devagar.

O Fabio estava lá, de alguma forma, desde que comecei a procurar um amor. Ele estava presente na minha vontade de ter com quem comentar o que eu lia, alguém com quem eu pudesse compartilhar o amor pela língua e pelos livros. Um companheiro. Foi sempre o Fabio que eu pedi a Deus.

Ele apareceu concretamente na minha vida no início dos anos dois mil, como uma das pessoas queridas que conheci através do mundo dos blogs. Eu-Não-Percebi. Ele estava na sombra para mim, e eu para ele. Não nos enxergávamos.

O tempo passou, sofri, ri, chorei, dei com a cara na porta. Cresci. De alguma forma desisti de um dia encontrar o meu melhor amigo.

E então, ele simplesmente estava lá.

Por Fábio:

Não houve nenhuma voz trovejante vinda dos Céus, em baixo profundo, dizendo “vai lá, cara, que essa de ficar sozinho tá com nada”. Deus é mais sutil. Creio que ele olhou para mim, murmurou “ah! você diz que quer ficar sozinho, é?, que passou quase meio século e tá bom assim, é?, sei”, então começamos a conversar, Assunção e eu, digo, não eu e Deus, ainda que nossa conversa, minha com Deus, nesses últimos tempos tenha sido mais ativa.

Nossas conversas passaram do conhecimento do Outro ao reconhecimento de nós mesmos. Ali estava uma Mulher, A Mulher. De modo que, desse reconhecimento à mudança de expectativas na vida não foi um salto, mas um passo, pequeno, cotidiano, óbvio. Não há espanto. Não há surpresas. Não há a angústia de mudança. Há a clareza de que, juntos, apenas cumprimos aquilo que nos é natural.

A vida ao lado de Sue é a vida na sua plenitude, e a plenitude é o Amor.

Tags: , , , , ,


About the Author



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑

Gostou do nosso conteúdo? Nos acompanhe nas redes sociais!

  • Facebook
  • Instagram
  • SOCIALICON