Outros papos

Published on junho 18th, 2018 | by Ana

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Livro dá trabalho: André Silva faz, há 12 anos, capas de livros para a Verus

Ocupar uma vaga em uma editora é o sonho de muitos leitores apaixonados. E, para sair do forno um livro quentinho, é preciso mesmo que muita gente coloque a mão na massa. Por isso, começamos a publicar, nesta segunda-feira (18), uma série de entrevistas com profissionais do mercado editorial que contam um pouco mais de suas rotinas, delícias e dificuldades. Afinal, “livro dá trabalho”.

O nosso primeiro personagem é o André Silva, que foi de Gerente de Novos Negócios na Verus, um dos selos do Grupo Editorial Record, ao posto de Designer Gráfico e Gerente-assistente Editorial. Após 12 anos desenvolvendo capas de livros, entre outros materiais, ele admite que o aprimoramento natural faz com que nem todas as suas artes o agradem hoje. Porém, lista aqui suas criações favoritas.

Oi, André. Já sabemos que sua história na Verus é longa. Você pode nos contar qual é a sua formação e como você se tornou o responsável pelas capas dos livros publicados pelo selo?

Sou graduado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Desde criança eu sempre gostei de criações artísticas diversas (embora eu nunca tenha sido um bom ilustrador) e vi, na minha escolha de curso superior, a chance de trabalhar com projetos gráficos, entre outras possibilidades. Inicialmente, atuei no mercado em funções administrativas e de marketing, inclusive na Verus, aproveitando as oportunidades que apareciam. Cheguei a me especializar em Administração de Empresas ao fazer pós-graduação na área, mas não me sentia realizado com o que eu atuava. Aí surgiu a oportunidade de eu fazer a diagramação de alguns livros da editora e — por eu ser caprichoso, detalhista e prezar a harmonia estética/visual de tudo o que eu me proponho fazer — logo me deram uma capa para eu criar. Agradei e não parei mais! Hoje sou o designer da Verus, responsável pelos projetos gráficos dos livros.

Uau! Pode nos contar então como você começa uma capa? Recebe uma prévia ou o original do livro para se basear?

Eu recebo sempre uma sinopse da equipe editorial e muitas vezes, texto de análise do livro (que contém o resumo) das pessoas que avaliam a publicação. Se o livro é estrangeiro, eu também busco por resenhas na internet para me abastecer de possíveis outros detalhes, além de visualizar as capas estrangeiras, que já me dão a ideia e o tom do livro. Já se o livro é nacional, eu também recorro ao autor para conseguir informações que ele julga importantes. Algumas vezes eu recebo liberdade total para criar, outras, um “briefing”, orientações e/ou desejos. Nunca precisei ler o original para fazer uma capa, mesmo porque os processos e prazos de trabalho não me permitiriam isso. Normalmente, trabalho em projetos de pelo menos dois livros simultâneos.

Então, em caso de livros estrangeiros, que liberdade as editoras nacionais têm de mexer na capa?

Dificilmente há previsto em um contrato de publicação a obrigação de se usar a capa original. Os proprietários autorais (editora estrangeira e/ou autor) normalmente dão total liberdade para a editora nacional criar sua versão de capa, seja fazendo algo totalmente diferente ou apenas alterando um pouco a ideia original, desde que a arte final seja aprovada por eles. Caso a editora nacional opte por usar a mesma arte de capa ou somente alguma foto ou ilustração do projeto original, precisa pagar uma taxa pelo fornecimento dos arquivos e pelos direitos de uso, por meio de um contrato à parte. No caso da Verus, optamos muitas vezes em usar a capa original quando o design nos agrada e o avaliamos bom para o mercado nacional. Diversas capas estrangeiras já são conhecidas do público brasileiro, que aguarda a publicação do livro no país, e, por esse motivo, manter a identidade visual normalmente é vantagem para a editora. Nesse caso, sou o responsável pela adaptação da arte para a versão brasileira.

O autor sempre precisa aprovar a capa do livro?

Sim, inclusive o autor estrangeiro, caso não seja usada a capa original. Mas ele não é o único que decide: a editora, por meio de seus departamentos editorial, de marketing e comercial, também precisa aprovar a arte, pois sua visão do mercado nacional é essencial para se viabilizar o bom desempenho das vendas. A aprovação final tem que ser conjunta.

Em geral, como são feitas as escolhas de fonte, uso de ilustração ou foto nas capas?

Precisa sempre haver uma coerência entre o projeto visual e o conteúdo do livro, pois fontes, cores, fotos e ilustrações são códigos visuais que ajudam a direcionar o público leitor à ideia principal de uma determinada leitura. O quesito orçamento também é de grande relevância. Há, por exemplo, bancos de imagens (com ilustrações e fotos) de custos muito acessíveis e outros de valores bem superiores. Além disso, para determinados projetos, pode haver a necessidade de se contratar os serviços de um fotógrafo (tal como um livro de biografia) e de um ilustrador (como no meu caso, por exemplo, que sou designer e não ilustrador). E o orçamento também é um fator restritivo para a escolha do acabamento: capa dura, tipos de papéis para o miolo, quantidade de cores etc.

Quais são os desafios e prazeres da sua função?

Um desafio é encaixar o processo criativo das capas em meio a prazos muitas vezes apertados e outras atividades, já que como designer, eu também faço a diagramação dos livros, a inserção de emendas de revisão, alguns materiais promocionais e dou suporte às equipes de marketing, comercial, produção e imprensa. E pegando o gancho da pergunta anterior, é muito desafiador apresentar um projeto que agrade as várias frentes: autor, empresa e leitores! Mesmo uma avaliação de escopo mercadológico por parte da empresa recebe o crivo inevitável das visões subjetivas, ou seja, é permeada pelos gostos individuais. Agradar a todos é impossível! Normalmente tenho que lidar com comentários e opiniões diferentes e chegar numa solução mais coesa possível. Por outro lado, é muito gratificante quando obtenho a aprovação final da minha arte! Isso significa que, além de eu ter conseguido um projeto coerente, eu agradei de uma forma geral os agentes avaliadores. E tão prazeroso quanto isso, é receber elogios do público leitor — o que pode ocorrer por meio das redes sociais.

Para terminar, que conselhos você pode dar a quem quer seguir esse caminho profissional?

Para quem quer se tornar um capista de livro, eu aconselho fazer algum curso superior que aborde criação gráfica, como Publicidade e propaganda, Marketing, Arquitetura, Artes visuais, Designer gráfico etc. Mais que um curso técnico, a graduação permite a compreensão dos diversos fatores e elementos do contexto mercadológico. Outro ponto fundamental é a necessidade de se dominar os softwares mais usados na criação de capas e projetos de livros, como Adobe Indesign, Adobe Photoshop, Adobe Illustrator e CorelDraw, e de se manter sempre atualizado em relação às tendências e estilos gráficos. Por último, muita paciência para retrabalhos, perseverança para encontrar uma solução que agrade aos principais interessados e entendimento de que seu gosto pessoal não necessariamente vai refletir o gosto do público e/ou a adequação do projeto.

Confira uma lista de capas que o André adorou fazer…

Osho todos os dias, “uma das primeiras capas que eu fiz e que me motivou a seguir como capista”;

No mundo da Luna, “a primeira capa premiada — melhor do ano de 2015 por um blog literário”;

Ruínas do tempo, “capa muito elogiada pelo saudoso Sergio Machado, ex-presidente do grupo editorial Record”;

Um romântico incorrigível, “capa que encantou o autor, estrangeiro, e me rendeu um inesperado e-mail de agradecimento e muitos elogios marcantes”;

Encanto mortal, Belo sacrifício, série Noivas da Semana, série Trinity, “que teve capas das quais eu mesmo gostei muito do resultado”.

… ou que gostaria de ter feito

A capa do Cinquenta tons de cinza, “que quebrou paradigmas de capas de livros de romance erótico e criou um novo estilo, além do fato da visibilidade que a capa alcançou pelo livro ter se tornado best-seller mundial. Há muitas outras capas que eu gostaria de ter feito simplesmente pelo fato de eu as admirar (relação arte x layout), como a da A última chance e a da A Ponte De Haven — ambos livros da Verus cujas capas decidimos usar as originais, estrangeiras, e eu só as adaptei”.

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