Outros papos

Published on junho 25th, 2018 | by Marcela

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Entrevista: Vitor Martins, de ‘Quinze dias’

Na Semana do Orgulho LGBTI+, o “Cuida bem do meu livro” terá uma série de conteúdos temáticos. Para começar com o pé direito, nesta segunda-feira, entrevistamos Vitor Martins, autor dos livros “Quinze dias” e “Um milhão de finais felizes”, que ainda será lançado. Nos dois casos, as obras trazem personagens gays como protagonistas. 

Na conversa, Vitor conta como é apaixonado pela literatura YA (Literatura Young Adults ou Ya-Lit, focada em jovens-adultos), por trazer temas muito importantes para rodas de discussão. Além disso, lembra que, apesar de ter sido adolescente nos anos 2000, só foi ler um livro com protagonista gay quando já era adulto.

“Quinze Dias” foi sua primeira obra e super elogiada. Mas, antes da publicação, como a sua história, que é uma história de romance gay, foi recebida pelas editoras em geral?

Eu tive uma experiência bem diferente de outros autores quando se fala sobre publicação tradicional. “Quinze dias” não foi um livro que passou por outras editoras antes de chegar na Globo Alt. O convite para publicação partiu da própria editora e, entendo o tamanho do privilégio e da sorte que eu tinha nas minhas mãos quando esse convite apareceu, eu já sabia que não tinha como eu escrever uma história que não abraçasse os leitores LGBTQ+, e não contasse a história e a vivência dessas pessoas. Mas, de uma maneira geral, eu acho que o mercado editorial tem ficado cada vez mais atento para esse tipo de representatividade no seu catálogo. Acho que acaba sendo um ciclo de oferta e procura que beneficia todo mundo. Os leitores, principalmente os jovens, estão cada vez mais exigentes. Eu percebo um desânimo geral para narrativas que seguem o mesmo padrão de sempre. A história do casal branco heterossexual, por mais que ainda seja a mais comercial de todas, conversa pouco com os leitores que não se encaixam nesse cenário, e a demanda do publico por histórias diversas está cada vez maior. Com essa procura, as editoras também se interessam em publicar essas histórias porque, bem, elas vendem. E, falando da minha experiência com a Alt, é ainda mais legal quando a editora se preocupa com o que ela está entregando para os seus leitores. Quando enriquecer a diversidade do catálogo se torna uma questão que não fica apenas no lado comercial. A Globo Alt abraçou “Quinze Dias” de uma forma muito bonita e incrível e a minha experiência não poderia ter sido melhor!

Na sua adolescência, você lembra de ter lido livros com protagonismo LGBT? E como você se sentia em relação a isso?

Eu fui adolescente nos anos 2000. Por mais que isso possa parecer recente, muita coisa mudou de lá pra cá. Falar de protagonismo LGBT dentro de um LIVRO em 2005, por exemplo, era quase impossível. Essas histórias existiam, mas elas não chegavam a mim. Seja porque a maioria delas começou a existir lá fora e dificilmente chegava até o Brasil, ou porque a literatura nacional (principalmente a literatura para adolescentes) não produzia esse tipo de histórias. Não consigo nem lembrar de ficar chateado ou desejar ler um livro LGBT porque, na minha cabeça, essa possibilidade nem existia. Eu já era adulto quando li um protagonista gay, mas fico muito feliz de saber que os adolescentes de hoje têm tido cada vez mais histórias assim.

O cenário mudou um pouco, certo? Que respostas você recebe do público LGBT e de héteros sobre o livro publicado e as expectativas para o segundo? Isto é importante para você?

SIM! O cenário mudou bastante! Ainda estamos longe do mundo ideal mas é muito bom ver como o mercado e como os leitores estão mais abertos para essas histórias. Falando sobre feedback, as respostas que recebo de leitores a respeito de “Quinze dias” são muito variadas. Mas, surpreendentemente, a maioria não fala especificamente sobre sexualidade. O fato do Felipe ser um protagonista gordo acabou sendo muito mais percebido e comentado pelos leitores, até porque o peso e autoestima do Felipe são muito mais importantes na história do que a sexualidade dele. Mas eu realmente fiquei muito surpreso com a variedade de pessoas em termo de gênero, idade, faixa etária etc, que se sentem impactadas por lerem pela primeira vez um protagonista gordo. A autoimagem e o amor próprio são temas que alcançam uma variedade muito grande de pessoas e “Quinze Dias” me fez perceber isso de um jeito incrível!

Sobre o “Um milhão de finais felizes”, aliás, como surgiu a ideia de inserir algo de fantasia, e contar também a história de dois piratas bonitões e gays?

Eu acho incrível a ideia de existir um mundo de fantasia com um romance entre dois caras acontecendo. Na verdade, se eu pudesse, eu pegaria todas as narrativas que a gente já conhece e colocaria gays no meio pois é isso que eu amo fazer (HAHA). Mas eu nunca tinha escrito nada de fantasia até então e ainda tinha muito medo de dar o primeiro passo. A ideia foi colocar um personagem meu escrevendo fantasia, e todas as inseguranças que eu tinha para escrever esse gênero se tornariam as inseguranças do meu personagem. Eu acho que deu certo e estou muito empolgado para que os leitores conheçam Jonas e os seus piratas!

Óbvio que fomos stalkear, digo, pesquisar o seu site e vimos que, ao contar do processo de escrita, você admite que passou por toda a “síndrome do segundo livro”. Quais foram as maiores diferenças e como foi o processo de escrita dele?

Eu acho que o fator mais importante que fez com que o processo do segundo livro fosse DOIDO foi toda a questão da expectativa. Com o primeiro livro, tudo era novidade. As pessoas leram sem saber muito o que esperar e muitas pessoas gostaram! Isso me deixa muito feliz mas ao mesmo tempo eu fiquei um pouco aterrorizado. Sempre rolam aqueles questionamentos tipo “E se ninguém gostar?” “E ser for muito diferente do primeiro?” “E se for muito igual ao primeiro?”. Saber que existem pessoas que estão ESPERANDO por esse livro me deixa super inseguro, porque quando eu estou esperando demais por um livro de algum dos meus autores favoritos eu vou com tudo, compro na pré-venda, leio que nem um desesperado e morro de medo de quebrar a cara. Eu espero que “Um milhão de finais felizes” não decepcione.

Outra coisa que mudou foi a autoria da arte de capa. A de “Quinze dias” foi feita por você. Como foi abrir mão dessa tarefa agora?

FOI MUITO DIFÍCIL PORQUE EU SOU SUPER CHATO E EXIGENTE COM CAPAS! Mas, desde que tive a ideia inicial para a capa, eu sabia que não conseguiria fazer. Eu sabia que seria outra pessoa. Na verdade, desde o começo eu já queria o Helder, porque o traço dele é TUDO. Daí abrir mão foi complicado mas trabalhar com o Helder foi incrível. Tudo que mudou da minha ideia original saiu da cabeça dele, e cada rascunho que ele mandava eu gritava de empolgação! Foi complicado perder o “controle”, mas dei sorte de trabalhar com um ilustrador incrível que sabia o que estava fazendo. E o resultado é tão incrível que até agora eu ainda não consegui parar de olhar para a capa e SUSPIRAR APAIXONADO, porque eu sou assim (HAHAHA).

Também amamos saber que seu principal objetivo como escritor é contar a história de pessoas que nunca conseguiram se enxergar em um livro. Conta para a gente: você já pensou nos personagens que gostaria de trazer em seus próximos romances?

Eu tenho um monte de ideias, mas o próximo livro ainda não existe na minha cabeça. Eu sei que quero continuar escrevendo personagens LGBTQ+ e, aos poucos, expandir meus protagonistas dentro da sigla porque representatividade GGGG não é o que eu quero fazer. Me diverti muito escrevendo os piratas, então talvez eu esteja pensando em testar mais coisas fora do contemporâneo. Mas nada certo ainda. Só vou pensar em livro novo depois da Bienal, senão eu vou surtar (haha).

Falando agora um pouco sobre vida pessoal, imaginamos que isso também desperte a curiosidade dos seus leitores, principalmente por você ser uma presença ativa na internet antes mesmo da publicação de “Quinze dias”. O que as pessoas querem saber e como você lida com isso?

No começo foi muito complicado lidar com algumas inseguranças porque, assim que eu anunciei que Quinze dias seria publicado, começaram a brotar um monte de comentários do tipo “LÁ VEM MAIS UM LIVRO DE YOUTUBER” ou “SÓ PUBLICOU PORQUE É FAMOSINHO NA INTERNET”, e isso mexia bastante com a minha confiança como escritor. Eu cheguei a acreditar que a minha escrita merecia sim ser desvalidada, porque eu não precisei correr atrás de uma editora e “recebi tudo de mão beijada”. Foram necessárias algumas conversas na terapia e muitas noites mal dormidas para eu entender que, se eu consegui um contrato de publicação porque já tinha uma base de seguidores na internet, eu deveria aproveitar essa oportunidade para dar o meu melhor e escrever uma história que eu realmente acho relevantes para os leitores e para a minha carreira. Hoje, eu tenho muita convicção de que meu futuro profissional está na escrita. Não é fácil, porque quando a gente escreve literatura YA e LGBT no Brasil, a gente precisa ficar se provando o tempo inteiro para mostrar que o nosso trabalho é válido, mas o meu sentimento geral sobre isso é gratidão. Gratidão pelas pessoas que me acompanhavam na internet e decidiram dar uma chance para o meu livro e pela forma como a internet me ajuda a divulgar as minhas histórias.

E como leitor, Vitor, o que você mais gosta de ler? Tem algum livro para recomendar ou um autor que não falte na sua estante?

Eu sou apaixonado pela literatura YA , porque ela sempre traz temas muito importantes para rodas de discussão. Eu amo como a literatura para jovens cria um público leitor do zero e abre portas para que esses jovens leitores conheçam mais e mais obras. E quero aproveitar esses espaço para falar de dois livros nacionais YA que estão saindo agora e são leituras indispensáveis! “Céu sem estrelas”, da Iris Figueiredo (que escreveu o blurb* de UMDFF!!!), e fala sobre ansiedade, transtornos mentais, famílias complicadas e autoestima. Um livro incrível, lindo e sensível. E também “Você tem a vida inteira”, do Lucas Rocha, que sai agora na Bienal e conta uma história de amizade maravilhosa, fala sobre HIV de um jeito que eu nunca li antes e carrega uma mensagem de esperança que todo mundo deveria ler! 

*Blurb é aquele texto curto na capa dos livros em que um outro autor fala sobre a obra ou sobre o escritor.

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