Outros papos

Published on julho 2nd, 2018 | by Marcela

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Livro dá trabalho: Fernanda Lizardo é tradutora e lê em primeira mão títulos estrangeiros

Trabalhar com livros e conhecer em primeira mão títulos que fazem sucesso em outros países são alguns dos atrativos de ser tradutor. Conversamos com a Fernanda Lizardo, que atua no ramo editorial há 20 anos. Formada em jornalismo, a profissional autônoma já trabalhou com tradução, revisão e preparação de originais de livros variados, que vão de romances de banca a “Assassin’s Creed”, da Galera Record, passando por “Outlander”, da Editora Arqueiro, a “Chronos — Viajantes do Tempo”, da Darkside Books.

A entrevista da Fernanda é a segunda da série “Livro dá trabalho”, em que profissionais do mercado editorial revelam suas rotinas, desafios e realizações. A tradutora conta que trabalha geralmente em duas obras ao mesmo tempo e que, quando está envolvida com alguma edição mais famosa, precisa assinar um acordo de confidencialidade prometendo não revelar nada do enredo.

Para começar, pode nos contar como você escolheu e se tornou tradutora?

Aos 15 anos de idade, eu sempre fazia traduções aqui e ali. Na época, eu morava em uma vila de 10 mil habitantes no interior do Pará e a carência de tradutores era muito grande. Como eu falava um pouco de inglês, era comum que funcionários da mineradora local me procurassem para traduzir documentos e apostilas. Mas eu fazia tudo muito informalmente, trabalhava de graça ou cobrava valores simbólicos. Foi algo que fiz por anos. 

Oficialmente, comecei a trabalhar no ramo em 2008. Eu era editora na Reader’s Digest Brasil, e a estagiária que trabalhava diretamente comigo saiu para trabalhar na Editora Harlequin (uma ramificação da Editora Record e que hoje faz parte do grupo Harper Collins). Então um dia ela me perguntou se eu gostaria de fazer a preparação de originais de um livro.  Eu não sabia muito sobre o processo, porque até então vinha focando no jornalismo, mas topei mesmo assim. Aí não parei mais. Hoje faço revisão, preparação de originais e tradução.

Estamos curiosas sobre o seu trabalho de tradutora. Você trabalha de forma autônoma, certo? Como chegam os pedidos para tradução e como são firmados os contratos?

Sim, sou autônoma. Durante muito anos conciliei o trabalho com empregos CLT, mas em 2012 resolvi me dedicar exclusivamente à tradução e revisão. Em geral, já tenho contatos em várias editoras e o processo é relativamente simples: elas enviam um e-mail perguntando sobre minha disponibilidade, oferecem determinado título, determinam o deadline e é isso. Os contratos são individuais, por obra, alguns envolvem assinatura de documentação para cessão de direitos autorais; e às vezes, quando o livro é muito famoso, eu assino um acordo de confidencialidade prometendo não revelar nada do enredo.

Os contatos foram aparecendo aos poucos, a maioria por indicação. Aquele primeiro colega lá na Harlequin me indicou para uma pessoa, que me indicou para mais outra, e mais outra, e assim foi se formando a carteira de clientes. Houve uma ou duas vezes em que abordei o cliente em redes sociais, pedindo pela oportunidade de fazer um teste, e fui atendida. Ah, importante: cada novo cliente exige um teste, mesmo que você tenha dez anos de experiência.

Depois disso, como é o desenvolvimento do seu trabalho? Você trabalha em home-office? Lê a obra inteira primeiro ou vai lendo e traduzindo aos poucos?

Quando chega um livro, a primeira coisa que faço é dar uma olhada na sinopse e fazer uma breve pesquisa na internet a respeito dele. Antigamente, eu lia a obra inteira antes de começar a traduzir, mas agora não dá tempo mais, pois lido com um volume de trabalho muito grande.

Então começo: monto um cronograma no Excel que inclui tudo: o deadline da entrega e até os percalços que eu possa vir a ter. Prevejo os dias em que vou render pouco porque precisarei sair, minhas folgas ou até a possibilidade de ficar doente. E depois de analisar o estilo do livro, deduzo quantas páginas devo fazer por dia. 

Pode não parecer — pois trabalho em casa, usando roupas confortáveis e no ar condicionado —, mas o trabalho de tradução é muito cansativo, afinal exige 100% de concentração. Se você se levanta para beber um café, quando volta, meio que precisa de uns minutos para retornar ao “transe” que é mergulhar em um livro. Diferentemente de certas funções, é impossível trabalhar e falar ao telefone ao mesmo tempo, por exemplo. E se alguém bate à porta e pergunta se pode interromper, costumo dizer que “já interrompeu”. He, he.

Em média, qual o tempo necessário para traduzir uma página ou um livro? Você pode pegar mais de um serviço por vez?

Eu trabalho muito com Young Adult, que é um estilo de linguagem leve. Faço em média cinco mil palavras por dia, o que dá mais ou menos um capítulo inteiro de um livro. Eu sempre prefiro dividir por capítulos, aliás, porque assim a história fica bem marcada na minha cabeça. 

Meu prazo médio por livro vai de 15 dias (um pocket book de 100 laudas) a dois meses (um livro de 400 laudas). Depois de traduzir o livro todo, eu releio inteirinho para revisar, o que pode levar de dois a cinco dias.

Mas, lógico, já fiz muito mais em situações de emergência. Em uma ocasião extraordinária, já aconteceu de me pedirem pra traduzir um livro inteiro em apenas dez dias (incluindo a revisão). Foi um caso no qual eu sentava ao computador de manhã e só saía no início da madrugada, esquecia até de comer.

É normal pegar mais de um livro por vez, e até gosto de trabalhar em dois ao mesmo tempo. Mas não é bom passar disso. Já cheguei a fazer três, mas é algo que não recomendo. Cansa demais, física e mentalmente. Chego a terminar o dia com dores no corpo.

É claro que isso não é feito de forma profissional, mas quando é lançado um novo livro de uma série de sucesso, alguns fãs se propõe a traduzir a versão original para colocar logo na internet. Quem se sente à vontade, mesmo com limitações, lê em outro idioma mesmo. A paixão do público leitor (principalmente os fãs de alguma série ou autor) aumenta a pressão no seu trabalho?

Olha, acho que a pressão existe sempre. Nosso trabalho é muito exposto, e se não fica bom, todo mundo percebe (e o leitor mais exigente reclama mesmo, com todo o direito). Mas embora eu tenha trabalhado em séries com uma boa fandom — como “Os Instrumentos Mortais”, da Cassandra Clare, e “Outlander”, de Diana Gabaldon — nunca enfrentei a pressão de pegar um “Harry Potter”, por exemplo, que tem fãs muito atentos a qualquer deslize.

Falando em fãs então, temos uma questão talvez polêmica. Você já precisou trocar nomes de personagens? Como isso é determinado para ser bem feito?

Em tradução nunca passei por isso. Mas houve uma vez em que enfrentei um percalço na preparação de originais do livro “Eva”, de Anna Carey. Em inglês, o nome da protagonista era Eve, em alusão à primeira mulher da Bíblia. Era uma trilogia que foi lançada de maneira sincronizada no mundo todo, de modo que os volumes foram saindo quase simultaneamente aqui e lá fora. Quando o segundo volume — Uma vez — foi publicado, descobrimos que “Eve” era um apelido para “Genevieve”. Mas aí já estava feito e ficou assim mesmo, mantivemos Eva.

Quando traduzo aqueles romances de banca voltado ao público feminino, por exemplo, não mexo nos nomes dos personagens, mas adapto o que se pode adaptar, pois é um público com pouco acesso ao inglês. Em um dos livros, o protagonista era dono de um rancho chamado “Last Chance”,  que virou Última Chance, até porque a explicação do nome era importante para a história e a leitora precisaria compreender seu significado.

De qualquer forma, o tradutor nunca toma uma decisão sozinho. Tudo é feito em conjunto com os editores. Eu mesma sempre coloco observações ao longo do livro, explicando cada decisão. Às vezes todos os envolvidos palpitam e a gente vai fazendo um brainstorming até chegar no melhor formato.

E já aconteceram casos em que você achou melhor usar a expressão estrangeira a traduzi-la? Ou lembra de casos em que ficou muito na dúvida sobre como traduzir uma palavra, inventada ou não pelo autor?

Isso acontece sempre. Todo livro tem uma ou outra palavra que deixa a gente por dias pensando no que fazer. Certa vez, peguei um livro no qual o protagonista era espanhol e ficava chamando outra personagem de querida, e a palavra sempre aparecia em itálico. Para a gente, não soaria como uma palavra estrangeira, então troquei tudo por cariño. O editor considerou uma boa saída e assim foi publicado.

Quando o autor inventa uma palavra, a gente tenta seguir o mesmo formato quando não dá para deixar no original. Os livros de “Game of Thrones” não foram feitos por mim, mas têm bons exemplos. Hardhome virou Durolar, Highgarden virou Jardim de Cima, e assim vai.

Em geral, a palavra final é sempre do editor responsável por aquela obra. O tradutor palpita, digamos assim, e o que ele pode fazer é oferecer quantas opções forem possíveis. Eu diria que adaptar palavras não é tão árduo. Difícil mesmo é adaptar sotaques.

Como você trabalha com diversos estilos literários para várias editoras, gostaríamos de saber quais são as estratégias para manter o ritmo e os modos do autor original.

É algo até meio difícil de descrever porque sempre que trabalho, sinto que estou mergulhando em um livro. Então, o estilo da obra praticamente fica introjetado em mim no ato da leitura. Mesmo quando troco de autor, parece que tem um interruptor dentro de mim que é ligado também. Acho que esta é a pior resposta de todos os tempos, pois de fato não sei especificar porque isso acontece. (risos) Mas percebo que é algo muito nítido, porque quando vou escrever algo autoral, tendo a seguir o estilo do autor que estiver lendo naquele momento. Eu chamo de osmose literária.

Outra coisa que faço muito também é ler por lazer. Toda noite, antes de dormir, leio alguma coisinha. Isso vai me ajudando a captar nuances e estilos aqui e ali. E eu sempre presto atenção para ver quem foi a editora que publicou aquela obra, para já captar o estilo dela caso trabalhemos juntos um dia.

Você consegue dizer qual livro mais gostou de traduzir? E um que você adoraria ter realizado o trabalho de traduzir?

São muitos livros que adorei fazer, mas acho que tenho um carinho especial pelo “Chronos — Viajantes do Tempo”, da Darkside Books, principalmente porque foi meu primeiro livro para eles, e adoro a editora, e porque mantive contato com a autora, Rysa Walker. Foi tudo muito produtivo. Quando terminei de fazê-lo, eu chorei — literalmente mesmo — porque tinha acabado e eu não ia ter contato com aqueles personagens mais.

O “Demônio na Cidade Branca”, de Erik Larson, que saiu aqui pela Intrínseca, é um que eu gostaria de ter feito. Agora estou fixada em um livro chamado “The Radium Girls”, de Kate Moore, sobre um grupo de mulheres que sofreu intoxicação pelo elemento químico rádio ao trabalhar pintando mostradores de relógio que brilhavam no escuro, na época da Primeira Guerra Mundial. Ao processar a empresa pelos danos sofridos, elas conseguiram mudar as leis trabalhistas no Estados Unidos. Este não tem previsão de sair no Brasil, mas estou fazendo um certo lobby dele, digamos assim (iniciativa meramente pessoal), e de olho em quem pode comprar os direitos. Eu sou apaixonada por livros e não hesito em ficar atenta e fazer campanha nas editoras quando aparece algo que me interessa.

Outra dúvida: você se tornou fã de algum autor ou estilo literário após traduzir os livros?

Passei a apreciar bastante os livros de guerra, principalmente as batalhas romanas. Era um estilo que eu não buscava antes. E passei a dar atenção especial ao Oliver Bowden, que fez os livros da série “Assassin’s Creed”. Ele é muito envolvente e tem um estilo narrativo delicioso.

Para terminar, que dicas pode dar para alguém que sonha em fazer este trabalho (desde cursos a atitudes)?

Eu me sinto um dinossauro na hora de falar sobre o mercado atual, pois quando eu era adolescente, por exemplo, nem tinha internet direito. Tudo mudou muito, mas vamos lá…Para quem está começando, sugiro iniciar fazendo pequenos trabalhos gratuitos ou de valor simbólico, principalmente para ONGs. Algumas, inclusive, fornecem cartas de recomendação para seus colaboradores. Muitos colegas experientes abominam quem trabalha sem remuneração e, assim, desanimam os iniciantes. Não enxergo desta forma. É preciso entender que a carreira do tradutor iniciante é de um jeito, e a do experiente é de outro. Já trabalhei de graça, mas hoje não trabalho mais.

Entrar em grupos no Facebook também ajuda, pois são onde surgem oportunidades de trabalho e boas dicas. E nunca, nunca se meter em discussões nestes grupos, principalmente se houver ofensas gratuitas envolvidas. Muita gente se queima assim.

Também é legal se envolver bastante na faculdade; em geral, os alunos que se destacam não passam desapercebidos aos olhos dos professores e muitas oportunidades surgem ali. 

E recomendo ler, ler muito, sobre todos os assuntos. A habilidade de lidar com diferentes estilos, a riqueza do vocabulário… Tudo isto vem da leitura.

Quanto a faculdades, dá para passear por vários caminhos: Letras, Produção Editorial, Jornalismo…Eu mesma sou formada em Jornalismo. E isso sem mencionar a parte da tradução técnica. Existem bons engenheiros tradutores e bons médicos tradutores, mas não vou entrar muito nesse mérito porque não é meu ramo de atuação.

Isso sem contar os cursos de extensão em tradução, as palestras, os workshops, em que aprende-se muito e se faz networking. Os grupos de Facebook são o caminho para encontrá-los.

No mais, o tradutor precisa ser humilde, acima de tudo. Ele está lidando com a obra de alguém, tendo a honra de pegar o trabalho de outra pessoa e de transformá-lo em algo novo e acessível. É um meio de egos inflados e é fácil se deixar levar. O tradutor tem de ser muito aberto a críticas; como ouvi sabiamente de um editor certa vez: “o tradutor não é um herói romântico incompreendido. É um profissional. E deve se portar como tal”.

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9 Responses to Livro dá trabalho: Fernanda Lizardo é tradutora e lê em primeira mão títulos estrangeiros

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  3. Duran says:

    Excelente entrevista!
    É muito legal saber mais sobre as nuances do trabalho de tradução!
    Parabéns 😀

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  6. Jorge Costa says:

    Passei só pra dizer que cheguei aqui pelo PodIsso :)). Grata surpresa em saber que a Lizard Girl atua na área editorial. Entrevista bem esclarecedora, minha esposa adoraria conversar contigo por horas, ela leu quase todos os livros que você citou ;).

    • Fernanda Lizardo says:

      Oi, Jorge
      Fale comigo pela DM do Twitter para eu poder combinar um papo com a sua esposa. Vou adorar conversar com ela sobre livros também.
      Abraço!

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  8. Adauto Corrêa Cardoso says:

    Fernanda lizardo, maravilhosa ! Excelente entrevista, clara , objetiva e sobre tudo motivadora . Parabens pela entrevista . Então agora vou viajar e sonhar nos meus livros . Abraços !

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