Outros papos

Published on julho 30th, 2018 | by Ana

0

Livro dá trabalho: Como editora, Nathalia Dimambro seleciona livros para selo jovem

Já imaginou ter no currículo que você revelou um talentoso autor ao grande público? É claro que não é bem assim que eles se apresentam, mas os editores são os profissionais que podem guardar este orgulho no coração. Por isso, causam inveja em diversos leitores. Em mais uma entrevista da série “Livro dá trabalho”, que reúne trabalhadores do ramo, conversamos com a Nathalia Dimambro, da Companhia das Letras.

Há quatro anos, ela desempenha a função de editora de ficção infantojuvenil e young adult (termo usado para se referir a livros com protagonistas e temática voltada para jovens adultos) e conta sobre sua rotina, muito mais agitada do que poderia imaginar. 

Como você começou a desejar isso e se preparou até se tornar a editora da Seguinte?

Eu descobri o curso de Editoração na USP durante o ensino médio. Sempre gostei muito de ler, e também me interessava bastante por design, então quando chegou a hora de prestar vestibular achei que o curso poderia unir as duas coisas, com o foco em livros. Durante a graduação, me identifiquei mais com a parte de edição de texto, e consegui um estágio no departamento editorial da Companhia das Letras quando a editora estava lançando novos selos, entre eles a Seguinte. Desde então fui construindo minha carreira aqui, e há quatro anos desempenho a função de editora.

Outro trabalho dos sonhos para muitos leitores é o de escritor. Conta por quais caminhos são feitas as seleções de livros nacionais para publicação?

Muitos originais nacionais chegam até nós através de agentes literários, uma profissão que em outros países é mais estabelecida, mas que cresce cada vez mais no Brasil (o Cuida bem do meu livro conversou com um agente aqui). Também podem chegar através de algum contato que o escritor tenha no mercado. De tempos em tempos, a Companhia das Letras recebe originais pelo correio, que qualquer pessoa pode mandar. Quem tiver interesse pode ler mais informações sobre o envio de originais para a Companhia nesta página.

Atualmente, quais são os critérios que a Seguinte utiliza para publicação? Você acredita que essa avaliação é objetiva ou subjetiva?

Buscamos obras com personagens complexos e tramas envolventes, que sejam bem escritas e tenham uma voz única. Uma das nossas preocupações é que existam personagens diversos, em todos os aspectos — identidade de gênero, sexualidade, etnia, classe social etc. —, para que todos os jovens leitores se sintam representados. Buscamos obras que discutam temas relevantes para o nosso público, inclusive aqueles considerados tabus.

Acho que sempre que lidamos com criações artísticas a avaliação é subjetiva, mesmo que a gente tente usar critérios mais objetivos.

Há algo que faça uma obra ser eliminada logo em um primeiro momento? Algum tipo de erro ou orientação no texto?

Acho que uma eliminação imediata seria por inadequação ao catálogo. Muitos autores enviam originais para as editoras sem pesquisar o que elas publicam, e acabam submetendo obras que não têm nada a ver com o perfil da editora ou que pertencem a um gênero com que a editora não trabalha.

Você já “apostou” em algum autor novo que te deu muito orgulho depois? Pode contar quem? Agora, não precisa citar nomes, mas você lembra de acontecer o contrário: ter recusado algum livro que depois fez muito sucesso?

Um lançamento recente que me encheu de orgulho foi o “Extraordinárias”, escrito pelas jornalistas Duda Porto de Souza e Aryane Cararo. O livro reúne o perfil de mais de quarenta brasileiras de diversas épocas, regiões e áreas do conhecimento, que de alguma forma mudaram o nosso país. Muitas delas são pouco conhecidas, e contribuir para que essas histórias cheguem a uma nova geração de meninas e meninos é muito gratificante.

Eu vivo com o medo constante de recusar o próximo grande fenômeno mundial, haha! Acho que ainda não aconteceu, mas é provável que aconteça em algum momento.

Pode nos dizer quanto tempo você consegue dedicar à leitura e à análise de cada livro? Dá para ler todo? Como leitora, você acaba se envolvendo com a narrativa durante a avaliação?

Em geral só não leio o livro inteiro quando no meio da leitura já fica claro que ele não se encaixa no catálogo ou que não é o que a gente está buscando no momento.

É difícil “desligar” a chave de editora enquanto leio (até quando leio livros por prazer estou sempre pensando na edição do texto e caçando erros, é infernal!). Um dos livros que avaliei que me envolveu completamente como leitora foi o “Por lugares incríveis”, da Jennifer Niven, que fiquei até quatro da manhã acordada para terminar e chorei até desidratar com o final!

Para o trabalho, quantos livros você costuma ler por mês?

Varia muito. Tentamos avaliar um livro a cada uma ou duas semanas, para discutirmos nas nossas reuniões editoriais com toda a equipe. Mas temos que conciliar as leituras com todas as outras tarefas da profissão. Em épocas de feiras de aquisições (como a Feira de Bologna e a Feira de Frankfurt), o volume de leituras aumenta bastante. E também estou sempre (re)lendo a obra que estou editando no momento.

E você ainda consegue ler livros apenas para proveito próprio? Atualmente, quais seus livros e autores favoritos?

Cresci lendo Harry Potter e depois O Diário da Princesa, e nunca parei de ler literatura juvenil e YA. Na medida do possível, tento acompanhar o que as outras editoras estão publicando, e sou fã de autores YA publicados por outras casas, como a Nicola Yoon e o John Green. Também gosto de ficção em geral, quadrinhos, poesia. Admiro muito a obra da Jane Austen e da Virginia Woolf. Há algum tempo li contos do Caio Fernando Abreu e fiquei apaixonada pela escrita.

E queremos saber mais sobre o dia a dia em uma editora… como é o processo de escolha e compra de um livro estrangeiro?

Temos um departamento de direitos estrangeiros que cuida dessa etapa junto com o editorial. Recebemos um volume enorme de originais estrangeiros, por meio de agentes literários e editoras de outros países. Com a ajuda de scouts (profissionais especializados em identificar livros “quentes” em outros territórios), selecionamos o que vamos ler e discutimos nossas leituras nas reuniões editoriais. Quando decidimos comprar um livro, fazemos uma oferta. Se mais de uma editora brasileira se interessar em adquirir os direitos de determinado título, ocorre um leilão até sobrarem apenas duas editoras no páreo, que mandam suas melhores ofertas para o autor escolher uma.

Vale ressaltar que avaliamos a maioria dos livros estrangeiros antes mesmo que eles sejam editados e publicados em seus países de origem.

Além da seleção de livros, que outras atividades você desempenha na editora? Tem algo que te dê mais prazer?

Como editora, acompanho toda a cadeia de produção do livro, desde a avaliação e aquisição até ele chegar nos pontos de venda e nas mãos dos leitores. Encomendo a tradução (no caso dos títulos estrangeiros) e a preparação de texto, faço a edição, escrevo os aparatos (textos das orelhas e da quarta capa). Acompanho as etapas desempenhadas por outros departamentos, como a criação da capa, a diagramação do miolo e as revisões de texto, assim como marketing, eventos, vendas. Por ser uma editora voltada para o público jovem, a Seguinte tem uma presença forte nas redes sociais, e participo dessa parte também.

Gosto bastante da edição de texto e do contato com os leitores.

Por fim, na sua opinião, o que é necessário para ser uma boa editora?

Antes de começar a trabalhar eu imaginava que ser editor era ficar sozinho e isolado, lendo sem parar, tipo um ermitão. Não é nada disso. Ainda que a gente leia o tempo todo, a profissão é bastante social. Estamos sempre em contato com outras pessoas: autores, agentes, colegas, colaboradores. É um trabalho coletivo.

Acho que bons editores são organizados e cuidadosos, já que a produção de um livro envolve uma série de detalhes que parecem irrelevantes mas são essenciais para garantir um produto final de qualidade e uma boa experiência de leitura. Ser criativo e ter novas ideias também ajuda muito, para pensar em novos projetos e em como tornar um livro mais inovador. Também acho importante não ter preconceitos literários — nem sempre editamos livros de que gostamos, mas é necessário respeitar toda obra, autor e leitor.

Tags:


About the Author



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑

Gostou do nosso conteúdo? Nos acompanhe nas redes sociais!

  • Facebook
  • Instagram
  • SOCIALICON