Livro em sete dias

Published on agosto 21st, 2018 | by Ana

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‘O Sol na cabeça’, de Geovani Martins

Meu livro da semana é nacional, publicado pela Companhia das Letras, mas já vendido para ao menos nove países. Esta não é uma leitura agradável, nem deve ser.

Sinopse: O sol carioca esquenta a prosa destes treze contos que retratam a infância e a adolescência de moradores de favelas como jamais foram retratados. O prazer dos banhos de mar, as brincadeiras de rua, a adrenalina da pichação, as paqueras e o barato do baseado são modulados tanto pela violência da polícia e do tráfico quanto pela discriminação racial indisfarçável no olhar da classe média amedrontada. Com a estreia de Geovani Martins, a literatura brasileira encontra a voz de seu novo realismo.’

Sobre o autor: Geovani escreve a partir da sua vivência como morador de favela de forma muito corajosa. É preciso coragem para abordar o que está tão perto, sem pudor. Além disso, seus textos transitam entre a oralidade e a formalidade muito bem.

Julgamos o livro pelo título e pela capa: As cores quentes e a tipografia usadas na capa dialogam bem com o título, que sem ser óbvio já anuncia o realismo presente em todo o livro. Chega a queimar.

Trama: Em “O Sol na cabeça”, com 13 contos protagonizados por moradores de favela e majoritariamente ambientados nestes espaços urbanos, o escritor fala sobre pobreza, violência e vulnerabilidade. Não cheguei a ficar surpresa com o que é exposto (nem depende disso qualquer mérito), mas acredito que muita gente descubra nestas páginas a realidade dura do que é viver no Vidigal, na Rocinha, no Jacaré ou no Vintém. Fato é que reconhecidas ou não, as cenas descritas são tensas, tristes e por vezes até nojentas. A abordagem do consumo de drogas e da dura policial é repetitiva (mas também é na vida real). Na minha opinião (quem sou eu?), o autor acerta mais ao se negar a simplificar as questões sociais – jogando luz sobre os sentimentos de seus personagens, como a sensação de exclusão, a sedução através do poder, a busca pela fuga dos problemas – e ao apontar a hipocrisia do asfalto.

Ponto forte: “Espiral” e o “Mistério da vila” foram os textos que mais mexeram comigo. “Espiral” expõe ao leitor o íntimo de um protagonista favelado visto como ameaça no resto da cidade, em uma trama tensa e triste. Já “Mistério da vila” é o conto mais diferente do livro, abordando a intolerância religiosa e a hipocrisia, mas com um toque de beleza oferecido por alguns puros corações infantis.

Um livro para ler: pausadamente.

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