Outros papos

Published on agosto 27th, 2018 | by Ana

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Livro dá trabalho: Carla Bitelli fala sobre limites e desafios na revisão de livros

Na era da internet, pressa é palavra de ordem. Mas, se ela é inimiga da perfeição (e é mesmo), no ramo editorial, os profissionais que fazem revisão de livros precisam estar preparados para não sucumbir no desafiante dia a dia de corrigir erros de digitação, falhas gramaticais e até de coerência textual. Carla Bitelli é uma dessas especialistas, entrevistada para a nossa série “Livro dá trabalho”, que conta a rotina dos profissionais que trabalham em meio a obras literárias.

A Carla é editora formada pela Universidade de São Paulo, mas também faz trabalhos como freelancer em revisão. Em seu currículo, estão “Forrest Gump” e “Star Wars: Academia Jedi” (Aleph), e “Herland – A Terra das Mulheres” (Via Leitura).

Para entendermos o processo de realização de um livro, gostaríamos de saber em que momento uma obra é entregue ao seu revisor.

Depende muito do processo da editora em questão. Por algum motivo que eu particularmente acho estranho, tem editoras que trabalham com revisão no Word, antes da diagramação — o que, em termos de processo, eu acho um desperdício de recursos. No processo ideal, o revisor pega o livro depois de diagramado (ou seja, o livro já passou por preparação de texto/copidesque e foi editado).

Sendo assim, no que consiste exatamente o papel da revisora de livros? E esta profissional tem carta branca para agir?

Também depende do processo, do relacionamento do revisor com a editora e mesmo da obra em questão. Normalmente, o revisor precisa apontar erros (não só gramaticais, mas como de coerência textual, por exemplo; ou seja, se houver furos na história ele pode/deve apontar sim). Nem sempre o revisor tem carta branca para agir, mas ele pode comunicar o problema que identificou para o editor, que vai buscar uma solução. Quando o editor tem já uma boa relação com o revisor, no entanto, muitas vezes o profissional tem a liberdade de sugerir modificações mais intensas. Mas sempre existe um diálogo entre os profissionais do livro com o editor. Então, em casos mais complicados é fundamental entrar em contato com o editor para saber como proceder.

Como você se interessou e se preparou então para atuar na área?

Desde criança eu queria ser editora de livros — a revisão é algo que faço, mas não é minha atuação principal. Entrei em Editoração pela ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) em 2005 e, ainda no curso, comecei a estagiar na área. Depois virei editora assistente, editora… Neste momento, atuo como editora freelancer e tradutora, principalmente.

Na sua opinião, a existência dessa figura profissional dispensa que o autor se preocupe em atender as normas da língua durante a escrita ou, por exemplo, procure trocar palavras constantemente repetidas?

Não acho que seja assim. Acho que autor nenhum fica com isso na cabeça na hora da escrita, até porque escrever é um processo que envolve muitas refações. De qualquer modo, a revisão é fundamental também por entender que ninguém é infalível, e todos podem cometer erros de todo tipo.

Como você avalia a produção nacional de escritores hoje em relação a isso? Pela sua experiência, as obras aceitas por editoras costumam apresentar já um bom nível de cuidados ou o que vale é a trama?

Depende tanto do tipo de obra que é até difícil responder. Eu diria que em literatura é mais comum receber um texto mais elaborado, revisto diversas vezes pelo autor. Mas qualquer um que já escreveu um texto longo sabe que, em dado momento, a gente começa a ficar “cego” para alguns problemas.

Entendemos. E em quantas leituras você faz a revisão de um livro? Quanto tempo demora?

Faço uma única leitura, depois repasso as emendas feitas. A revisão de um livro de literatura de tamanho médio (até 350 páginas) normalmente se faz em 5 a 7 dias, mas depende da editora e da agenda do profissional e também do rendimento dele.

Nos ajude a visualizar como é sua rotina quando está revisando um projeto. Todo lugar é lugar ou é preciso ir a uma mesa, ter ao redor materiais de apoio? O que você come é uma preocupação para garantir um bom trabalho? E você se impõe um limite de tempo ou intervalos para atuar direto em um livro?

(É) Fundamental estar num ambiente que você consiga se concentrar e ficar confortável, pois o trabalho de revisão é árduo para o corpo (são horas numa mesma posição, afinal). Além disso, vale lembrar que o revisor vai fazer isso dia após dia, então é necessário criar sim um espaço adequado de trabalho para que não desenvolva lesões (como tendinite) com o tempo.
Para revisar, é preciso ter materiais de apoio como dicionários, internet para fazer pesquisas, caneta, lápis e borracha.

Eu não gosto de comer trabalhando, mas eu diria que a alimentação é uma preocupação em relação a qualquer atuação, certo? Mas é preciso lembrar de tomar água e de ir ao banheiro!

Não me imponho limites, faço conforme a necessidade. Mas como no geral bebo muita água e preciso levantar várias vezes para ir ao banheiro, acabo fazendo pausas frequentes.

Você atua especialmente com livros voltados para o público jovem, certo? O que isso impacta na revisão? Há alguma mudança na atividade? Uma tolerângia maior às escapadinhas da norma culta?

O impacto é mais no estilo do texto mesmo. Sentir as escolhas do autor/do tradutor e deixar fluir, especialmente quando são representações de oralidade.

Há perigo de um revisor entusiasmado interferir demais e mudar o estilo do autor? Que cuidados o revisor deve tomar para isso não acontecer?

Sim, esse perigo existe. Ele deve conhecer o limite da atuação dele e se restringir às correções. Qualquer coisa além disso deve ser discutida com o editor.

Geralmente, o escritor avalia de alguma forma o processo de revisão do seu livro? Você já ouviu histórias de reclamações referentes a uma interferência do revisor além da conta, como dissemos, ou pedidos para voltar algo ao original?

Em relação à revisão é mais raro. Problemas do tipo costumam acontecer mais na edição de texto e preparação/copidesque. Eu mesma já fiz um livro em que meu trabalho de edição foi pro lixo porque o autor não aprovou. 🙁

Para começar as despedidas, gostaríamos de saber quais são seus orgulhos profissionais. Você guarda algum carinho especial por uma obra que você revisou?

Meu neném maior é a Coleção The 39 Clues, publicada pela Ática. Eu fiz a prospecção dessa coleção quando era estagiária ainda, e editei praticamente todas as obras que saíram no Brasil.

Outro de que me orgulho muito é Herland – A Terra das Mulheres, publicado pela Via Leitura.

E, por fim, tem algum escritor já falecido que você gostaria de ter revisado?

Jane Austen! Brasileiro, eu diria Erico Verissimo.


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